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Inovação Uniemp

versão impressa ISSN 1808-2394

Inovação Uniemp v.3 n.6 Campinas dez. 2007

 

 

Indústria automobilística busca sair da lista dos vilões ambientais

 

 

por FÁBIO REYNOL

 

 

Ao ligar o seu carro para ir ao trabalho toda manhã você estará entre os principais responsáveis pela emissão de carbono na atmosfera. Caso você trafegue pela Grande São Paulo, 97% desse elemento lançado diariamente no ar da região sairá do seu e dos outros 7,3 milhões de veículos da maior megalópole do país. Em média, para cada litro de gasolina queimado num motor de carro são expelidos mais de dois quilos de dióxido de carbono (CO2). Se o combustível for álcool saem do escapamento aproximadamente 1,4kg de CO2 por litro consumido.

Os dados foram registrados pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e divulgados no recém-publicado relatório de 2006 de qualidade do ar no estado. Os números mostram a considerável participação dos veículos automotores nos níveis de poluição urbana e no conseqüente aumento no efeito estufa. A indústria automobilística, por força de lei e para atrair um público cada vez mais interessado em questões ambientais, está respondendo ao problema com novas tecnologias de redução de poluentes.

Uma das respostas do setor ao mal que sai dos escapamentos está na próxima geração dos sistemas de partida a frio para motores bicombustíveis. Desde o seu lançamento no fim da década de 1970, o motor a álcool brasileiro sempre apresentou dificuldades para entrar em funcionamento nos dias frios. De lá para cá, pouca coisa mudou na solução encontrada para contornar o problema: um mini-tanque de gasolina para ajudar na partida. A diferença é que na década de 1980 era o motorista que apertava um botão para injetar gasolina durante as manhãs de inverno, hoje um software faz isso automaticamente, mas o tanquinho ainda está lá anexado aos modernos motores flex.

 

 

O novo sistema de partida a frio dosa a quantidade exata de calor necessário para aquecer o combustível antes de ele ser injetado. "Com isso obtemos uma melhor queima do álcool, gasolina ou qualquer mistura dos dois e reduzimos as emissões de poluentes em torno de 18%", revela Fábio Ferreira, gerente de desenvolvimento de produto da unidade de sistemas a gasolina da Robert Bosch da América Latina, uma das empresas que estão desenvolvendo a tecnologia. Prevista para equipar os carros brasileiros a partir do próximo ano, a nova partida a frio é uma das promessas de carros menos poluidores. Em simulações de laboratório, os técnicos da empresa chegaram a obter uma redução de até 40% nas emissões de poluentes, segundo Ferreira. Além disso, ela trará mais segurança ao eliminar o tanquinho de gasolina.

Reduzir emissões através da economia de combustível é o objetivo de outra tecnologia também em desenvolvimento nos laboratórios da Bosch. Batizado de "Start-Stop", o sistema consiste em um leitor que reconhece uma série de condições de uso do carro. Desse modo, a unidade de comando desliga automaticamente o motor quando o automóvel fica parado em marcha lenta por um longo período. Assim que o motorista aciona o acelerador o motor é religado. O "Start-Stop" deve reduzir o consumo de combustível entre 5% e 15%, segundo os técnicos da empresa.

Em paralelo com as pesquisas de otimização de consumo estão as de desenvolvimento de motores que usam combustíveis mais limpos. É no que aposta a unidade brasileira do grupo francês PSA Peugeot Citroën. Desde junho a empresa exporta motores bicombustíveis para o mercado europeu. A fábrica de Porto Real (RJ) é a primeira do Brasil a fornecer motores flex para outros países e atualmente equipa veículos vendidos na França e na Suécia. Com uma legislação ambiental cada vez mais exigente, a Europa viu na tecnologia brasileira uma alternativa de redução da poluição. Os motores flex feitos aqui se ajustaram bem ao álcool europeu, que usa beterraba como matéria-prima e é vendido sempre misturado à gasolina.

 

 

Ainda visando o exigente mercado europeu, a PSA firmou uma parceria com o Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas (Ladetel) da USP de Ribeirão Preto para testar veículos de passeio movidos a biodiesel. O Laboratório tem obtido sucesso com o B30, 30% de biodiesel misturado com 70% de óleo diesel. Um dos objetivos do projeto é examinar amostras de biodiesel feitas a partir de diferentes matérias-primas como soja, soja com mamona e palma. Até agora os técnicos não encontraram sinais de desgaste em componentes provocados pelo novo combustível e ainda registraram uma redução de 23% na emissão de partículas e de 11% nas emissões de monóxido de carbono.

Além das vantagens ambientais, o biodiesel pode trazer benefícios sociais e econômicos ao Brasil. É no que acredita o químico Miguel Dabdoub, coordenador do Ladetel e Presidente da Câmara Setorial de Biocombustíveis do Governo do Estado de São Paulo. "Todos os estados brasileiros poderão se desenvolver com o biodiesel através da utilização de oleaginosas oriundas de cada região," aposta o pesquisador.

Os combustíveis de origem vegetal também são a maior esperança de outra montadora francesa, a Renault, para cumprir a sua meta mundial: vender até 2008 um milhão de veículos que emitam menos de 140 gramas de dióxido de carbono (CO2) por quilômetro rodado. Com isso, a empresa pretende figurar em 2009 entre as três mais eficientes automobilísticas do mundo em baixa emissão de CO2. Até lá, a Renault espera ter 50% de seus veículos a gasolina vendidos na Europa equipados com motores bicombustíveis. "A tecnologia flex brasileira será a referência para o sistema europeu", afirma o supervisor de engenharia da Renault no Brasil, Carlos Bonote.

Outra cartada da montadora francesa para reduzir emissões é o chamado "downsizing" que nada mais é que a diminuição da cilindrada dos motores, mas mantendo o desempenho de modelos mais robustos. Com essa filosofia a empresa criou o TCE, um motor de 1,2 litro com potência de 100 cv, típica de motores 1,4 litro, e torque de 145 Nm, próprio dos carros 1,6 l. Utilizando o mesmo princípio, a General Motors do Brasil desenvolveu o motor 1,4 Econoflex. Com uma taxa de compressão maior, o motor apresenta potência superior a veículos 1,6 litro.

Além do chamado marketing ambiental, todos esses investimentos têm por trás outro poderoso motivador, a legislação. Baseado em países desenvolvidos, o Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve) estabelece reduções graduais de emissões nos veículos novos. Desde o seu início em 1986, o Programa registrou uma redução de até 96% nos poluentes em comparação aos motores produzidos há duas décadas. Atualmente, os veículos leves são a maior prioridade do Proconve. Devido à sua grande quantidade, os carros de passeio formam o grupo que leva a maior culpa pela baixa qualidade do ar dos grandes centros. Por isso, automóveis que poluem menos podem significar céus mais azuis e consciências mais leves na hora de ligar o motor.